Psicologia nas bailarinas de competição

  1. Psicologia do Desporto nas bailarinas de competição

 A ansiedade é um estado emocional que pode influenciar de maneira significativa o desempenho de atletas em competições e de bailarinos. É caraterizada por apreensão, tensão e nervosismo, o qual está relacionada com a ativação do corpo (De Rose,1997).

Segundo os autores Pujals (2002), Detanico (2005), Bertuol (2006) Lavoura (2006), atletas com altos níveis de ansiedade podem apresentar dificuldades na coordenação, falta de concentração, maior dispêndio energético da qual também afeta bailarinos em pré-competições ou em grandes apresentações de dança. No entanto, Sousa (2002) a dança é vista, muitas vezes, apenas como uma atividade lúdica, mas vale salientar que ela abrange um universo de tensões, de necessidade de aperfeiçoamento técnico e de perfeccionismo, ou seja, as pressões psicológicas sofridas por atletas de alto rendimento, também estão presentes no mundo da dança (Assis,2006).

Assim, o bailarino vivencia caraterísticas de um desempenho atlético, ou seja, com grande exigência física e mental, em que o stresse e a ansiedade pré-competitiva podem estar presentes na competição do bailarino com o seu próprio corpo.

De acordo com os autores Assis (2006) e Guimarães (2001) existem fatores como a inquietação, deslembrar a sequência coreográfica, a presença da plateia, devem ser levados em consideração antes das apresentações, visto que podem influenciar de maneira negativa o desempenho físico e psicológico do bailarino.

Entretanto, até o presente momento, são poucos os estudos que se preocuparam em abordar tal questão, essencial para os diversos profissionais envolvidos com a dança (Sousa,2002).

A partir disso, este estudo tem como objetivo apresentar alguns os níveis de ansiedade em bailarinos profissionais antes e após as apresentações de dança, bem como correlacionar o nível dessa ansiedade com o género, idade e tempo de experiência.

1.1 O stresse competitivo

O stress geralmente é iniciado por situações ou circunstâncias que são entendidos ou interpretados como prejudiciais, ou frustrantes (SPIELBERGER, 1989).

Além disso, ele pode ser causado como reação a um estímulo, emitindo uma resposta ansiosa que pode ser compreendida como a reação emocional frente a uma situação stress (BECKER JÚNIOR, 2000).

Pode ser um acontecimento físico, ou psicológico, que pode causar modificações nos acontecimentos de níveis superiores, assim como nas respostas neurofisiológicas.

Podendo ser positivo ou negativo, sendo o stress negativo aquele causador de frustrações e situações diárias que fogem ao controlo e são percebidas como uma ameaça. O nível de estresse tem grande relação com a ativação da liberação de cortisol (a partir da ativação do eixo HPA) com consequente aumento da atividade simpática, liberação de catecolaminas e glicocorticóides pelas glândulas supra-renais. Tanto o estresse físico, quanto o psicológico podem ocasionar ativação do eixo (X CURSO DE VERÃO EM PSICOBIOLOGIA, 2010).

Nas competições o stress pode ser causado por dois fatores: interpessoal e situacional, podendo ter como consequências negativas: aumento da fadiga, dores, angústia, ansiedade, depressão, diminuição do desempenho intelectual, desorientação espaço temporal, atenção dispersa, impossibilidade de relaxamento, alteração do estado de alerta, tensão muscular facial e mandibular, respostas desproporcionais aos estímulos externos (ROJAS, 1997).

Deve-se levar em consideração que, quando se refere a um processo competitivo, as pessoas envolvidas estão sendo submetidas constantemente a um verdadeiro bombardeio de observações, opiniões e julgamentos que podem criar expetativas, objetivos e pressões inadequados para seu desenvolvimento como atleta.

Em períodos de competição, quando as habilidades atléticas são publicamente testadas e avaliadas, a pressão que o atleta suporta pode se tornar um fator de influência negativa no seu desempenho (ROSE JUNIOR, 2002; BERTUOL E VALENTINI, 2006).

No contexto competitivo, o atleta tem como objetivo responder com bom rendimento, por isso tais fatores podem ter interferências positivas ou negativas. Bertuol e Valentini, em estudo realizado em 2006 afirmam que em períodos de competição, quando as habilidades atléticas são publicamente testadas e avaliadas, a pressão que o atleta suporta pode tornar-se um fator de influência negativa no desempenho. Vasconcelos-Raposo et al., (2007) mostra que em alguns casos a competição pode ser vista pelo praticante como uma ameaça, dependendo da disposição da personalidade (competitividade), atitudes, importância do evento (competição) e resultado, avaliação subjetiva de competência/ habilidade em relação a situação (MARTENS et al, 1990, HALL & KERR, 1997)

Quando falamos de respostas ansiosas ligadas ao stress, podemos ver mais diretamente a relação com os efeitos negativos relacionados à performance atlética, níveis alterados de stress e ansiedade podem causar efeitos negativos no desempenho individual, pois pode gerar preocupações relacionadas ao rendimento negativo, problemas na concentração, geração de imagens de desastre ou outras imagens situacionais prejudiciais a avaliação e problemas de auto controlo (DAVIDSON & SCHWARTZ, 1976; ROSE JUNIOR et al., 1999).

A perceção de ameaça liga o agente do stress e a resposta ansiosa, o que leva a uma variação desse estado em termos de intensidade e duração, em função da quantidade de ameaça percebida e a situação vivenciada (SPIELBERGER, 1989; DUNN & NIELSEN, 1993).

1.2 A ansiedade e a influência no desempenho competitivo

A ansiedade pode ser considerada uma forma de expressão da personalidade de um indivíduo (ansiedade traço), um estado emocional transitório (ansiedade estado) que envolve grandes conflitos, um tipo de incerteza subjetiva que compromete o comportamento normal do individuo gerando, modificações psicológicas (ansiedade cognitiva) e fisiológicas (ansiedade somática) sendo caraterizada por sentimentos desagradáveis de preocupação, tensão, apreensão, angústia e sofrimento (CASTILLO et al., 2000; WEINBERG E GOULD 2001; BUCKWORTH & DISHMAN, 2002; X CURSO DE VERÃO EM PSICOBIOLOGIA, 2010).

É caraterizada por um estado subjetivo de apreensão ou tensão consequente da interpretação de uma situação de perigo real ou imaginário, um tipo de afeto negativo, sendo acompanhado por sensações corporais desagradáveis tais como, medo, temor, preocupações, sensação de vazio no estômago; aumento da pressão arterial, frequência cardíaca e respiratória; aperto no peito e sudorese aumentada (BUCKWORTH & DISHMAN, 2002; RAEDEKE,2007; X CURSO DE VERÃO EM PSICOBIOLOGIA, 2010).

Quando refere-se a ansiedade patológica, pode- se destacar transtornos de pânico,de ansiedade social, de ansiedade generalizada (TAG), transtorno obsessivo compulsivo (TOC), separados em duas categorias, transtornos fóbicos e estados de ansiedade. As diferenças consistem no grau a qual a ansiedade é localizada ou difusa. Nas fobias, a ansiedade é localizada e/ou associada a um objeto ou evento particular. Na categoria, de ansiedade observa-se que a resposta é difusa e não relacionada a situações específicas (BUCKWORTH & DISHMAN, 2002; ACEVEDO & EKKEKAKIS, 2006; X CURSO DE VERÃO EM PSICOBIOLOGIA, 2010).

Quando faz se referência a ansiedade relacionada a um estado/situação específica, não levando em contas nenhum grau patológico, deve se, levar em contas para a intensidade da manifestação da ansiedade a relação da pressão imposta, ao nível de habilidade percebida e à natureza da atividade (SINGER, 1977). O aparecimento dessa condição em situações competitivas é comum, e seus efeitos parecem ser debilitantes na performance desportiva. Porém, tanto o stress quanto a ansiedade gerados pela competição variam de acordo com os recursos disponíveis (financeiros, preparo técnico, experiências previas, autoconfiança, competências, habilidades), interpretados para lidar com a circunstância ou situação (MARTENS et al., 1990; HALL & KERR, 1997).

Em casos extremos, os efeitos da ansiedade criam enormes dificuldades, que chegam a perturbar a concentração, níveis excessivos de ansiedade tendem a restringir o “campo” de atenção, e o atleta pode começar a prestar atenção somente a um número de sinais limitados, alterando seu estado de alerta e tensão podendo atuar negativamente em sua performance (DAMÁZIO, 1997), podendo criar a tendência no indivíduo de extrair pensamentos para evitar ou fugir da situação vista como ameaçadora (JUNIOR, et al., 2006; HALL & KERR, 1997).

A ansiedade excessiva, ou ausência dela, certamente levarão o desportista a resultados negativos, porém no componente somático, um pouco de ansiedade pode favorecer o rendimento de um atleta; estando presente até mesmo em atletas altamente confiantes. Já no componente cognitivo, quanto mais baixo, melhor o desempenho atlético (COX 1998, MORAES, 1990; BERTUOL E VALENTINI, 2006; HALL & KERR, 1997).

Níveis elevados de ansiedade somática são considerados negativos para habilidades complexas que exijam motricidade fina (ex: dança) (MARTENS et al., 1990) à medida que a ansiedade somática aumenta, os níveis de tensão e nervosismo aumentam (VASCONCELOS–RAPOSO, 2007). Este  tipo de ansiedade é presenciado no inicio da competição, ou seja, que ela influência no desempenho inicial apresentando um impacto mínimo no desempenho posterior (BURTON, 1988; MARTENS et al.,1990; MORRIS et al., 1997; FERREIRA, 2006), no decorrer da competição esta ativação transforma-se dando lugar a um relativo relaxamento, e, após o término da atividade, este nível volta a oscilar, devido a expectativa da repercussão do resultado (JUNIOR, 2004).

Nível moderado de ansiedade é considerado ideal para um desempenho adequado, pois assim a atenção do atleta teria seu foco direcionado para uma tarefa específica, sem que ele se distraísse com situações irrelevantes (baixa ativação) ou diminuísse seu campo de visão e prejudicando seu desempenho (alta ativação), tendo assim as alterações fisiológicas necessárias sem a presença de ações negativas no seu campo de perceção cognitiva (COX, 1998; HALL & KERR, 1997; MARTENS et al., 1990; WEINBERG & GOULD, 2001; BERTUOL E VALENTINI, 2006).

Considerando-se as reações observáveis nos níveis cognitivos e somáticos, Weinberg e Gould (2001) afirmam que um atleta muito ansioso pode apresentar maior dispêndio energético (devido ao aumento na tensão muscular), dificuldades na coordenação, aumento da apreensão, alerta, mudanças na concentração, campo de atenção, isto é, uma incapacidade de observar todo o contexto da jogada.

A autoestima, autoconfiança, reações psicológicas, programa de treino, a relação com o técnico, desempenho (esforço, persistência), motivação, participação, situação emocional, motivação familiar, tipo de tarefa, caraterísticas dos adversários, condições e regras de jogo, recompensas extrínsecas disponíveis (premiação), são fatores que auxiliam para mudanças nos níveis ansiosos em situação competitiva.

A autoconfiança é um dos componentes que interfere nos níveis de stress pré competitivo vivenciados pelo atleta, tendo assim relação inversa aos níveis de ansiedade competitiva vivenciados pelo sujeito (SWAIN & JONES 1992; VASCONCELOS-RAPOSO et al., 2007), percebe-se que, quando os atletas estão próximos de alcançarem os objetivos propostos, criam em si uma segurança e confiança o que permite que enfrentem as disputas com todas as condições (SANTOS, 2004; HALL & KERR, 1997). Novas situações e experiências provocam o desenvolvimento de um sistema integrado de estruturas e conteúdos que interferirão na análise (interpretação de ameaça situacional) e nas respostas emitidas (CRUZ; 1996). Para atletas bem preparados, autoconfiantes (interpretam-se como habilidosos e acreditam em seu próprio potencial) a competição terá um caráter desafiador, fato que pode impulsionar seu desempenho, provocando altos níveis de stress e transformando-se num fator negativo e na redução do desempenho (ROSE JUNIOR, 2002).

Fatores psicológicos relacionados à ansiedade, podem ter relação com a predisposição do atleta a lesões. Em estudo realizado por Lavalle e Flint, (1996), mostrou que alterações de humor como tensão/ansiedade; raiva/hostilidade; e estado negativo de humor são relatados em lesões severas. Pois pode ser que as respostas psicológicas do stress e ansiedade possam avivar a relação entre stress psicológico e lesão física uma vez que um grande estado negativo de humor pode contribuir para o aumento da tensão muscular, fadiga física e mental (ANDERSEN & WILLIANS; 1993).

Estudos presentes na literatura mostram que indivíduos do género feminino são mais afetadas, apresentando menor nível de autoconfiança, maiores níveis de ansiedade e perceção de ameaça, principalmente quando competem em modalidades individuais (JONES et al.,1989; KRANE & WILLIAMS, 1994; GONSALVES & BELO, 2007).

1.3 Comportamento da ansiedade na dança clássica em eventos competitivos

Tendo em vista que quando se fala do contexto competitivo, visa a ação ótima, o sucesso, a performance máxima, e que isolar as variáveis que influenciam negativamente neste contexto seria importante e interessante, estudar estas variáveis (fatores) talvez possam aproximar mais deste entendimento, sendo assim percebe-se que, vários fatores podem influenciar na obtenção de um bom desempenho, entre eles, os aspetos psicológicos como humor (ansiedade, raiva, agressividade, hostilidade, vigor, fadiga, depressão) e o stress podem ser considerados como importantes para que a atividade dos bailarinos possa ser realizadas da melhor forma possível, visto que a partir da sensibilização expressada na dança, estas emoções possam ter maiores representações no contexto artístico.

A ansiedade é um tipo de emoção secundária, classificada como a maior e principal causadora de problemas na competição (FERRAZ; 1997). Quando o atleta consegue atingir ou manter um nível ótimo de ansiedade ele está psicologicamente controlado o que é benéfico para seu bom desempenho, atletas hábeis são relativamente estáveis, consistentes e previsíveis (MACHADO, 2008).

Mesmo atletas habilidosos, competitivos, que se autovalorizem, considerando-se competentes para enfrentar a competição, no momento competitivo, sofrem mudanças (elevação) de seu nível de ansiedade, quando o evento se aproxima, com variações na magnitude das mudanças relacionadas ao grau de autoconfiança.

Tal acontecimento é uma consequência de acontecimentos psicológicos que refletem modificações fisiológicas necessárias para o sucesso na ação, no entanto, as alterações cognitivas não obedecem o mesmo comportamento, uma vez que estas estariam relacionadas com a confiança do atleta sob sua capacidade e domínio frente a situação (HALL & KERR, 1997).

Dados presentes na literatura, mostram que as bailarinas experienciam nos momentos antes da competição a diminuição do humor ansioso tendo em contrapartida o aumento da tensão e da ansiedade estado. Sendo que parece haver relação entre os níveis de ansiedade presentes na personalidade do sujeito, autoimagem, a magnitude e variação desta em situação competitiva (LEITE et al., 2009).

O mesmo estudo aponta que as bailarinas conseguem gerenciar sua ansiedade direcionando-a de maneira a qual esta não tenha grandes influências sobre o desempenho, as correlações apresentadas entre os achados apontados por Leite et al., (2009) mostrando que ocorrem alterações psicobiológicas pré-prova apontando a ideia de que ocorrem alterações significativas nos níveis de ansiedade em condição competitiva em modalidades relacionadas com a arte e expressão dramática (dança clássica), no entanto, apontam que o equilíbrio entre a tensão, ansiedade estado e humor ansioso auxiliam na determinação do sucesso na performance da dança clássica.

Conclusões

É assim possível concluir que:

  • O espetáculo de dança é um fator desencadeador para o aumento da ansiedade: Não se controla.
  • Aproveitar o momento, o qual muitas vezes não acontece.
  • O equilíbrio entre a tensão, estado de ansiedade e estado de humor, auxiliam na determinação do sucesso da performance da dança. Exigem que melhorem a técnica e os seus erros.

 

Referências Bibliográficas 

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-BARLOW, D. H. Manual Clínico dos Transtornos Psicológicos. 2.ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.

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– DE ROSE JR, D.; VASCONCELLOS, E. G. Ansiedade-traço competitiva e atletismo: um estudo com atletas infanto-juvenis. Revista Paulista de Educação Física, v. 11, n. 2, p. 148-154, 1997.

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– LAVOURA, T. N.; BOTURA, H. M. L.; MACHADO, A. A. Estudo da ansiedade e as diferenças entre gêneros em um esporte de aventura competitivo. Refeld, v. 1, n. 3, p. 74-81, 2006.

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-Weinberg RS, Gould D. Fundamentos da psicologia do esporte e do exercício. Porto Alegre: Artmed, 2001.

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